40 ANOS

 

A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta

Hoje faz quarenta anos que mundo da música conheceu um dos álbuns mais cultuados e influente da história do rock, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, a obra-prima dos Beatles.

Para mim o álbum tem um significado especial, pois foi através dele que eu descobri os Beatles. A primeira vez que eu o ouvi foi na casa de um primo. Eu ainda era bem novo, o disco ainda era de vinil. Achei as músicas bacanas. Lembro-me que o que mais me marcou foi a faixa Little Help from my Friends. Lembro de dizer: “Hei, essa é a música dos Anos Incríveis (aquele seriado de TV)”.

Só alguns anos depois, quando eu reencontrei o álbum, já em CD é que eu pude perceber toda a essência da obra, o que vai muita além das musicas e envolve todo um conceito elaborado por aquele álbum. Foi através dele que eu entendi porque os Beatles eram os Beatles.

A faixa - titulo do disco até hoje é a minha favorita do álbum, se bem que também adoro Lucy in the Sky with Diamonds (ainda mais depois das possíveis mensagens escondidas que a canção teria). Com essa canção eu consegui desfazer a imagens de meninos bonzinhos que eu tinha dos Beatles, e que fazia com que eu nitrisse uma certa antipatia pelos quarteto de Liverpool (não me xinguem, isso já faz tempo).

Isso sem falar na capa, em minha opinião a melhor do rock até hoje. Cheia de referencias, significados e revelações. Sendo que a referencia que eu mais gosto são as pistas sobre a morte de Paul McCartney (O que, não sabia que o Paul morreu em um acidente de carro e um sósia ocupou seu lugar na banda!!??? Então é melhor pesquisar!)

Em "Sgt. Pepper" , com todas suas vozes e os instrumentos surpreendentes, Lennon & Cia deram almas às canções e criaram um som único e maravilhoso.

A única coisa ruim do álbum, é que depois de ouvi-lo é difícil pensar em fazer musica ou ouvir outra banda.

“We're Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band,
We hope you will enjoy the show,
Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band,
Sit back and let the evening go.
Sergeant Pepper's Lonely
Sergeant Pepper's Lonely
Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band”

 

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CASA NOVA

Amigos,

Se para mim a faculdade serviu para alguma coisa, foi para  despertar a paixão pelo jornalismo literário. Para exercitar esse viés e até apra me aperfeiçoar nesse tipo de texto, estou criando um novo blog, o Cotidiano Literal, destinado a textos sobre o cotidiano, escritos com base nessa linguagem.

Por isso a atualização desse blog ficará ainda mais demorada. Não vou fechar esse blog, mas irei dar mais atenção a esse novo projeto. Esepero receber a visita de todos no novo endereço, com suas criticas e sugestões de sempre.

Nesse novo blog pretendo também publicar textos de outras pessoas, então se houver interessados, me escravam no  e-mail savanachi81@yahoo.com.br

o endereço do novo blog é :

www.cotidianoliteral.blogspot.com

Até lá

Abraços

Eduardo

AEROSMITH NO BRASIL

Eu fui

Uma noite de doces emoções

 

Uma noite que por muito tempo ainda ira habitar minhas lembranças. Nem a fila, nem a estorção no estacionamento (50 reais para deixar o carro), e nem a chuva foram capazes de tirar o brilho da banda de Steve Tyler ! Quando no telão apareceu a foto do planeta, rodando com o símbolo do Aerosmith gravado, a galera já estava ensandecida. Foi difícil ouvir os primeiros acordes de Love in an elevator, musica que abriu a noite.

 

Do meu lado, nas arquibancadas, muitos pais e mães que acompanhavam seus filhos, também vibravam com aquele pontinho pulando no palco. Assistir a um show desses na arquibancada, é bom pois podemos ver um publico diferente do que, habitualmente, está presente na pista.

 

Antes do show, tranquilamente sentados curtindo um belo fim de tarde de sol e observando a corrida do pessoal da pista, ouvi vários pais contando aos filhos histórias de quando viram o Aerosmith em 94, e de outros shows que assistiram. Pensei na minha filha, será que algum dia eu a levarei em um show de rock!? Espero que sim!!

 

A grande decepção da noite foi o show do Valvet Revolver, não sei se porque eu esperava muito da banda, mas achei que faltou alguma coisa. A coisa ficou monótona, um show quase burocrático. Para se ter uma idéia, os pontos altos do show foram as “covers” do Guns e as aparições do Slash (esse sim um showmam de arrepiar) no telão. Ele aparecia, a galera gritava! E só.

 

Talvez eles devessem parar de tocar musicas do Guns, para não deixar o povo na expectativa de “qual será a próxima do Guns que eles vão tocar”. E também para criar uma identidade própria, talvez essa seja a “alguma coisa” que faltou.  

 

O show do Aerosmith foi maravilhoso. Impressionante a técnica dos caras ao vivo. O único problema foi o som baixo e mal regulado. Não dá para entender um som tão ruim em um evento desse porte. Não sei de quem foi a culpa, mas é algo imperdoável.

 

Quando iniciaram as primeiras notas de Cryin, gritos estéricos zuniram no meu ouvido e um coro de 65 mil vozes quase abafou a voz de um incansável Tyler. Dream On, Livin' On the the Edge, Janie's got a gun, Dude (looks like a lady), Sweety emotion, estavam todas lá!! A cada nova musica um novo arrepio percorria o corpo e gritos insanos saiam da minha garganta. What it takes fez a festa dos muitos casais presentes, que abraçadinhos curitam a balada.  

 

Joe Perry também foi um show a parte. Solos precisos, acordes entusiasmados. Cantou, colocou a guitarra nas costas, bateu nela com a camisa, a derrubou no chão. Até na bateria ele se jogou, em um momento grunge.

 

Fiquei pensando na energia que devia estar rolando na pista, isso sim uma grande diferença da arquibancada, quieta em vários momentos. A banda também cansou no meio do show e diminuiu o ritmo. Compreensível, afinal já são senhores. Mas a força das musicas já era suficiente para garantir o resto da noite! Para mim ainda faltava Eat the rich e Mama kim, mas essas acabaram não vindo.  Walk this way serviu de despedida! Aos milahres de fãs que compareceram ao Morumbi, resta torcer para que o Adeus se torne um até logo!!

Odisséia Cotidiana

 

Olhares perdidos, semblantes cansados.

 

Tumulto, aperto, desconforto, indiferença.

 

Filas intermináveis, empurrões, confusões.

 

As mãos firmem seguram no apoio, equilíbrio é fundamental. Conversas paralelas formam um mutuado de palavras que não fazem sentido.

 

Alguns se retiram dali através da musica, outros conseguem se deixar lavar pela leitura, grande parte se deixa vencer pelo sono e adormecem, acomodados em bancos duros, balançando no ritmo intenso da viagem.

 

 Não há nomes, são raros os sorrisos.

 

Parecem fantasmas, mas são pessoas. Pessoas tratadas como gado, mas ainda pessoas. Algumas vendendo, outras pedindo, poucos escutando. Todos tentando sobreviver.

 

O relógio dita a velocidade do passo, a pressa é companheira inseparável. Pressa para ir, pressa para voltar. Depois do sufrágio, da correria, do aperto, dos empurrões, do calor sufocante, dos cochilos, enfim o objetivo é alcançado. Chegamos em casa.  

Doces emoções

EU VOU!!!!

 

 

Por um bom tempo eu achei que a banda iria acabar sem que eu os visse tocando ao vivo. Afinal, a ultima vez que o quarteto de Bostom pisou em terras tupiniquins foi em 1994. Eu tinha apenas 12 anos e, apesar de já adorar a banda, não pude ir ao show. Mas nesse ano, os bons ventos do rock irão trazer o Aerosmith para o Brasil e de quebra, ainda teremos uma abertura de luxo com a excelente banda Valvet Revolver.

 

Em um bom momento da carreira, apesar da doença do baixista Tom Hamilton, a banda trará para São Paulo a badalada turnê "Route of All Evil", que já passou por mais de 30 cidades e promete levantar o Morumbi com os maiores clássicos do quinteto.

 

Eu já garanti meu ingresso. Se tudo der certo, dia 12 de Abril, eu, Steve Tyler & cia estarem juntos pela primeira vez! Tudo bem que não será um encontro privado, outras milhares de pessoas estarão presentes, mais isso é só um detalhe! Agora é só aguardar com ansiedade a hora de vibrar com sucessos como Living on the edge, Crazy, Dream On, Mama kim etc..

 

Detalhe:

Os ingressos começaram a ser vendidos para o grande publico na ultima sexta –feira (09/03). Devido ao trabalho, eu só pude ir atrás do meu no sábado. Fugindo da absurda taxa de conveniência, fui até o estádio do Morumbi.

 Com a lembrança do tumulto do show do U2 e dos maus bocados que passei no do Metallica, fui como se estivesse indo para a guerra. Na mochila, água, bolachas, protetor solar, e muita paciência.

Qual não foi minha surpresa quando, ao chegar no Morumbi, notei que as filas andavam rapidamente, pois haviam várias bilheterias abertas. A atendente era simpática, educada e atenciosa. Pronta para esclarecer todas as duvidas. Não colocaram nenhum obstáculo para a aquisição da meia entrada.

Em menos de trinta minutos eu já estava caminhando, alegre e sorridente a caminho do ponto de ônibus, com meus valiosos ingressos na bolsa. O show já começou bem!

 

 

Coisas que eu Penso

Dialogo com a realidade

 

Volto do trabalho. Os vidros fechados, som ligado, pensamentos longe. Estou ali, eu e meu mundinho particular. De repente, um cruzamento, um semáforo vermelho e sou obrigado a parar.  Enquanto me aproximo da fila de automóveis, observo um menino saindo dos meios do carro. Camiseta rasgada, short sujos, corpo franzino, ele se aproxima e para em frente ao vidro. Penso em não abrir, mas enquanto observo a expressão cansada do seu rosto ainda infantil, minhas mãos acabam tocando o botãozinho que me faz deixar meu mundinho. Olho nos seus olhos e faço uma pergunta que dá inicio a um dialogo que, até então, eu julgava pouco provável.

_ Qual o seu nome?

_ Por que “ce” que saber ?

_  Por nada.... Curiosidade?

_  Você é da policia?

_ Não!Por quê?

_ Porque se for, eu já vou dizendo que não fiz nada!

_ Mas eu não te acusei de nada!

 _ Então pra que “ce” quer saber meu nome?

_ Bom, são onze horas da noite, está frio, garoando e você está de short e camiseta, vendendo balas. Acho que um menino, que não deve ter mais de sete anos, deveria estar em casa uma hora dessas.

_ Na verdade eu tenho oito!

_ Que seja, eu perguntei seu nome e ia dizer: “Fulano , porque você não vai para casa!”

_ Meu nome não é fulano!

_ Eu sei, eu sei. É só um modo de dizer. Eu perguntei seu nome para saber como te chamar!

_ Bom, se eu disser meu nome você compra uma bala?

_ Se eu comprar as bala você vai pra casa?

_Tá  bom!!

_ Então me vê o pacote!                                      

_ Obrigado!

_ De nada! Bom o farol abriu, tenho que ir, Tchau !!

_Tchau !!

Engato a primeira, acelero e vou saindo. Antes de fechar o vidro ainda ouço uma voz gritando :

_ Hei, meu nome é Leaaandrooo!! 

 

Impressões do Cotidiano

As laranjas de Josemar

São quase dez horas da manhã de um belo domingo iluminado por um sol majestoso. Na rua, a tradicional gritaria da igualmente tradicional feira ecoava por todos os lados. Entre tantos chamados, um chamava atenção. Uma voz rouca que esbravejava: “Olha a laranja da felicidade, mais doce que a minha vida..” . Entre as primeiras barracas, de avental branco e calça jeans, estava o homem que repetia a frase incansavelmente.

O sorriso fácil, descompromissado e radiante é sua marca registrada. Assim como as pequenas manchas pretas espalhadas pelo nariz, que ele jura serem conseqüências de uma cusparada que levou de um sapo quando ainda era uma criança e vivia no interior do Ceara.

Na verdade, as mancha são umas das poucas lembranças do tempo de infância que sobraram na memória de Josemar Aparecido da Conceição, hoje um senhor de barba branca e rala, de pele morena “escurecida pelo sol e pela poeira”, como ele gosta de descrever. A fome, as dificuldades e as surras que tomava do pai, prefere não falar, diz que as deixou em Acarapé, pequena cidade onde viveu até os dez anos de idade, quando se escondeu na carga do caminhão do tio caminhoneiro e veio para São Paulo, tentar uma vida melhor. 

Desde que chegou em São Paulo, há quase 60 anos, nunca mais viu o pai, nem os dois irmãos. Sabe que um mora em Goiás e só. A mãe morreu quando ainda era um bebe.

Sem saber o que fazer com o sobrinho, o tio o levou para Sertãozinho, em uma das fazendas que prestava serviços. Lá Josemar conseguiu seu primeiro emprego na plantação de laranja. Aprendeu o valor da terra e o do suor do trabalho. Lá também conheceu Esmeralda, sua esposa. Uma mulher doce como as laranjas que Josemar hoje vende em sua barraca, nas feiras da vida.

Dizem que quando moça, dona Esmeralda arrancava suspiros até do filho do patrão, o que desanimava Josemar a tentar alguma coisa. Mas em uma tarde, voltando da plantação, em uma carroça, topou com a moça que vinha andando pelo estradão de terra batido. Ofereceu uma carona e naquele dia os olhos de Esmeralda recaíram no dele e ali nascia uma família que seria completada por quatro filhos e três netos.

Casaram-se, ele com 23 anos, ela com 18. Moravam em uma casa, cedida pelo dono da fazenda. Esmeralda logo se acostumou com as mãos ásperas e calejadas que lhe acariciavam o rosto todas as manhãs antes de sair para o trabalho,  que ia até o anoitecer. Ela cuidava da casa, mas também bordava, costurava e lavava para fora.

Juntos compraram um pedaço de terra e começaram a produzir. Hoje possuem uma das barracas mais famosas das feiras de domingo. Famosa tanto pelo sabor doce de suas laranjas, como também pelo humor de seu Josemar. Entre piadas, “causos” e ensinamentos, provoca o sorriso de qualquer um disposto há esquecer a pressa do dia-a-dia e perder algum tempo em conversas animadas, que por si só, explicam a frase inscrita em uma  placa de madeira, pendurada no alto da barraca:

“Vende-se laranjas, doa-se amor” .

 

 

 

 

 

      O país do carnaval...Até quando!?

 

 

 

E enfim passou o carnaval. Eu não gosto do carnaval.

Nada contra o samba, contra alegria, contra o direito da pessoa se embebedar durante quatro dias seguidos e fazer coisas que, na quarta-feira de cinzas, com certeza se arrependerá, isso se lembrar delas, claro.

Na verdade o que me irrita no carnaval é a capacidade que ele tem de alienar as pessoas sobre tudo que está acontecendo no Brasil. De repente tudo é festa, tudo é alegria, tudo é “Viva!! Moramos no Brasil o país do carnaval!!!”

De repente as noticias mais importantes são sobre a rainha da bateria que escorregou na avenida, sobre a cantora impedida de desfilar pela escola do coração, e tudo que importa é saber quem será a campeã do carnaval, como foi a festa dos famosos e por ai vai.

Mas esse fenômeno não é exclusividade do carnaval, a Copa do Mundo também é pródiga em nos deixar sem pensar em mais nada. Mas por mais que queira, não consigo falar mal da Copa, pois adoro futebol e como disse o filosofo, “das coisas sem importância o futebol é a mais importante”.  Além do que, Copa só tem de quatro em quatro anos, ao contrário do carnaval que todo ano pinta na “telinha” .

Confesso que, pelo menos pra mim, é meio surreal ver aquelas pessoas pulando pelas ruas do Rio, as mesmas em que há menos de três semanas, um menino foi arrastado e morto por bandidos. Será que depois de tanta folia, regada à cerveja, mulher pelada, confete e serpentina, vamos conseguir voltar ao grau de indignação de uma sociedade que exigia providências das autoridades “competentes”, que, claro, adoram o carnaval. Esses provavelmente devem ainda estar de ressaca e se lamentando pela festa acontecer “apenas” uma vez por ano.

Esse poder que o carnaval possui, conseguiu algo que até então eu julgava improvável: eu concordei com um texto da coluna semanal do insosso jornalista Diogo Mainardi!

Publicado na ultima edição da revista Veja, o texto de Mainardi começa assim: “....dumdundu  dundundundun dundundu dundundundun(...) O que é isso? Tem gente pulando o carnaval nas ruas do Rio? As mesmas por onde o menino João Hélio foi arrastado? O carnaval deveria ter sido cancelado e decretado luto em todo estado...”

Por mas que me doa dizer isso, concordo plenamente com o colunista. Não dá para achar que as cosias irão mudar com todos de braços cruzados, ou melhor, com os braços para cima e com os dedos indicadores levantados.

Me desculpem, mas um país que, depois de um crime desse tipo, para por quatro dias para que as pessoas bebam, sambem e dancem pelados pelas ruas fazendo as maiores loucuras... Não pode querer ser levado a sério!

 

Em Companhia de Uma Inglesa

Cassiano entrou na São Paulo Railway ainda jovem e lá se aposentou. Fui entrevistá-lo em sua casa, na cidade de Mauá. Ranzinza e pouco interessado, não me respondia sequer uma frase inteira. Marcamos um segundo encontro, mas dessa vez marquei em um bar próximo a sua casa. Em meio a cervejas e doses de conhaques, seu Cassiano se mostrou a vontade para contar belíssimas histórias, como a que segue.

 

Margareth, a mulher proibida

 

Uma noite fria caia sobre Paranapiacaba. Poucas luzes ainda se encontravam acesas na cidade e o silêncio só era quebrado pela cantoria de grilos e cigarras. Dentro do barracão de solteiros, Cassiano junto de outros amigos, tentava convencer César a desistir de uma atitude que considerava loucura.

César era um dos moradores mais velhos do Barracão, tanto em termos de idade como de permanência na casa. Chegara ali já há oito anos. Experiente, havia trabalhado em quase todas as funções dentro da empresa e estudava para ser maquinista. Ao que tudo indicava teria um futuro promissor na empresa.

Mas seu caminho começou a seguir por linhas tortas quando seus olhos recaíram sobre uma mulher chamada Margareth Will Spender, viúva de um diretor inglês que havia morrido de ataque cardíaco há quase um ano. Sem ter ninguém na Inglaterra, preferiu continuar no Brasil morando com o filho, que também trabalhava na companhia.

Era uma mulher bonita. Cabelos loiros e a pele branca que realçavam seus olhos esverdeados. Muitos olhavam para ela, mas se continham devido ao medo de represálias da empresa. Ninguém falava abertamente, mas relacionamentos entre mulheres inglesas e homens brasileiros eram mal vistos, pela companhia.

No entanto, César ignorou todos os medos e preocupações e se deixou guiar pelo coração. Passaram a se encontrar às escondidas. Naquela noite, mais uma vez se preparava para atravessar as ruas escuras da Vila para encontrar com Margareth. Cassiano aconselhou César a oficializar o namoro, conversar com o filho da mulher, mas ele não tinha coragem. Precisava do emprego. Sem ouvir os conselhos dos amigos, pegou o casaco e saiu naquela noite fria. Continua...

Em Companhia de Uma Inglesa

Continuação...

O som de suas botas batendo no chão de pedras ecoava pelas ruas da Vila. Naquele tempo as residências destinadas aos diretores e engenheiros chefes, eram casarões grandes, com uma ampla sacada. A porta dava para a sala de estar e os quartos ficavam no fim de um longo corredor. A cozinha ficava mais no fundo, onde uma escada levava ao porão ou oficina da casa.

Era por essa entrada que César costumava entrar na casa de Margareth. Chegava e batia três vezes na porta, que logo era aberta. Entrou e lá ficou por horas. Já quase amanhecendo, se despediu e se dirigiu até a saída dos fundos, por onde os empregados entravam com a lenha para alimentar o fogão.

Estava feliz, o sorriso lhe irradiava o rosto. Até que ao fechar a porta, deu de frente com um diretor da companhia, que logo o questionou sobre o que fazia naquele lugar. César ficou pálido, as mãos trêmulas e a voz falha. Tentou inventar uma desculpa qualquer, mas não obteve sucesso. Ao entrar no Barracão, a cor tinha lhe sumido do corpo, sua feição era de desespero. Nem o consolo dos amigos serviu para animá-lo.

Naquele dia trabalharia no turno da tarde e não saiu de casa até que chegasse o horário de ir. Enquanto se dirigia para o pátio de operações da empresa, pensava no que tinha acontecido e rezava para que o tal diretor não levasse o caso adiante. Mas, mal entrou no pátio e já foi chamado para comparecer à diretoria.

Na sala grande e mal iluminada, onde poucas vezes tinha entrado na vida e assim mesmo somente para receber elogios, não ouviu nenhuma explicação, desculpa ou advertência, ouviu apenas a noticia de sua demissão. Ali se acabava quase dez anos de trabalhos na ferrovia, sua primeira paixão.  Ele ainda não sabia, mas também perderia sua segunda paixão.

O filho de Margareth foi transferido para Inglaterra e para lá voltou com a mãe. Ao que tudo indica, César nunca mais a viu.

 A última vez que Cassiano encontrou César foi na estação do Alto da Serra, onde pegaria o trem com destino a Estação da Luz e de lá partiria para a Bahia, sua terra natal.  Nunca mais ouviu falar do jovem que teve a vida modificada pelos ideais de uma empresa que controlava e decidia o futuro daquelas pessoas.

 

 

Para ler outros trechos do livro, é só clicar ali no canto, na seção Em Companhia de uma Inglesa.

Atenção: A obra está registrada e protegida quanto aos direitos autorais

 

 

Em Companhia de Uma Inglesa

O texto a seguir faz parte do segundo capitulo do meu livro. O escrevi com base no depoimento de Dona Amélia, uma simpática senhora neta de um funcionário da ferrovia, que, sem duvida, guaradava uma bela história. O que mais me chamou a atenção durante seu depoimento foi a riqueza de detalhes com que ela descreveu fatos da sua infância. Uma memória incomum para quem já passou dos 80! 

 

Netinho, o sobrevivente

 

As obras da ferrovia estavam bem avançadas no ano de 1865. Em um trecho próximo de onde seria a estação do Alto da Serra, o som das picaretas ecoava em meio à mata. O sol forte castigava os trabalhadores que abriam caminho para que os trilhos fossem colocados. Naquele pedaço, a maioria dos trabalhadores eram brasileiros, mas havia também alguns ingleses e vários italianos.

O trabalho era duro, exigia o máximo do físico dos homens. Era necessário abrir a mata e romper uma parede de rocha para que se começasse a construção de um túnel. Entre aquela multidão de homens, um pequeno moleque, com pouco mais de 13 anos, de pele e cabelos claros e um corpo franzino, tentava se equilibrar em meio às pedras escorregadias. Em uma das mãos carregava com dificuldades um grande balde de água, na outra uma concha. Ia percorrendo toda a extensão da obra e dando água aos trabalhadores. Devido ao calor, aquilo era um alívio mais do que necessário. Quando a água acabava tinha que andar cerca de cinco quilômetros para buscar mais em um poço aberto durante as obras. E assim era o cotidiano de Cláudio Gonçalves Neto, ou Netinho, como era conhecido.

Era quase meio dia, os homens estavam em um ponto crítico. Tinham que construir um apoio para segurar os lados do morro, para que pudessem avançar mais fundo na rocha. Era um processo delicado, que exigia ao mesmo tempo força e perícia. Como sempre, fazia um calor torturante. Netinho estava próximo de onde tentavam abrir uma fresta na rocha quando a água acabou. Tinha que buscar mais. Tentou fazer hora, pois estava em um trecho mais distante, mas logo foi repreendido por alguns funcionários, resolveu começar a subida.

Aos pouco ia começando a escalada, subia com cuidado para não escorregar. Demorava de vinte a trinta minutos para chegar até o local onde buscaria mais água. Chegou suado, cansado da subida. Sentou em uma rocha e lá ficou descansando por alguns minutos. De repente, um barulho estrondoso, como se o céu estivesse caindo, se ouviu em toda a mata. Todos ficam assustados, uma correria, gritos. Netinho correu para a obra.

Enquanto se aproximava junto com vários outros homens que estavam em obras próximas, estranhou a falta do barulho das picaretas. Quando chegou no local, seus olhos espantados olhavam para um mutuado de terra, rochas e árvores. O que mais se temia havia acontecido, um desmoronamento havia feito sumir todos que ali trabalhavam.

Homens cavavam a terra, em busca de sobreviventes, mas só encontravam corpos. Até hoje não se sabe quantos morreram no desastre, Netinho calculava que foram mais de trinta homens.

Na Companhia Inglesa não existem informações sobre o acidente. Não existem números oficiais, nem as causas claras do acidente. A única certeza era sobre Netinho, o menino que tinha ido buscar água para os trabalhadores. Ele se tornará o único sobrevivente de um dos mais terríveis acidentes da ferrovia.

Netinho cresceu e se tornou seu Gonçalves, trabalhou durante muito tempo na estação do Alto da Serra, que ele ajudou a construir. Se casou, teve duas filhas, quatro netas. Das netas, a mais nova era Amélia Américo de Silveira, que sempre ficava impressionada com as histórias contadas pelo avô. “Meu avô dizia que, quando era a noite, às vezes passava pelo trecho do acidente e conseguia ouvir gritos abafados que vinham debaixo da terra. Não sei se é verdade ou apenas lenda, mas quando era menina não passava por ali por nada no mundo” conta a senhora, que hoje já tem seus oitenta e três anos e adora lembrar as histórias do avô, falecido ainda quando ela era criança.

 

 

Para ler outros trechos do livro, é só clicar ali no canto, na seção Em Companhia de uma Inglesa.

Atenção: A obra está registrada e protegida quanto aos direitos autorais

Um Menino que se chamava João

Hoje é o sexto dia em que o quarto do menino João Hélio amanhece vazio. Um garoto que teve a vida interrompida por um crime estúpido, bárbaro que nos choca por mostrar até onde chegamos.

No post anterior a esse eu escrevi sobre minha filha, Maria Isabelle. Ela tem os mesmos seis anos que João tinha. Talvez por isso essa história tenha mexido comigo. Enquanto a mãe do garoto concedia uma entrevista ao Fantástico, mostrando toda sua dor ao país, minha filha, tranquilamente, brincava na sala.

É impossível não pensar “e se fosse comigo”. A dor que esse pensamento causa dá a medida da dor daquela mulher.

Hoje em reportagem ao jornal Estado de S. Paulo, a ministra do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie, pediu cautela no debate sobre a redução da maioridade legal e também criticou a discussão de medidas em um período que ela classificou como de “comoção”. Pois eu pergunto a excelentíssima Ministra, se esse não é o momento qual será o memento ideal? Quantos Joãos terão suas vidas interrompidas para que algo seja feito? O que sentimos hoje é muito mais do que comoção. É indignação, revolta, e uma enorme impotência diante de tanta coisa errada.

Será que teremos que esperar que o seu filho, a minha filha, nossos filhos sejam vitimas dessa violência brutal para tentar virar esse jogo?

De acordo com a ministra, "Na realidade, apenas um menor está envolvido num grupo maior de pessoas suspeitas. De modo que direcionar tudo em relação aos menores me parece que é uma atitude persecutória em relação à nossa infância que merece educação, oportunidade de crescimento, de emprego de formação profissional para que não caia no mundo do crime". Concordo com a Ministra, é importante oferecer um respaldo para esses jovens. No entanto nada, nem a falta de educação, ou a falta de empregos, nem mesmo a ausência de oportunidades, nada justifica uma pessoa arrastar uma criança por quatro bairros do Rio de janeiro até a morte.

As dificuldades justificariam o roubo do carro, não o assassinato cruel e horripilante. Não dá para tratar esse individuo como criança. Os outros que a Ministra chama atenção por serem maior de idade, tinham entre 18 e 20 anos. Ou seja, há pouco tempo atrás eram menores, que freqüentaram as nossas fábricas de marginais chamadas de Febens e aprenderam tudo que precisavam para ser bandidos.

Temos sim que tomar uma atitude agora, com os sentimentos à flor da pele. Agora é hora de a sociedade preparar um contra- ataque. Ou então corremos o risco de outros “menores” começarem a acreditar que três anos não é tanto tempo. Que nos fim das contas vale a pena roubar, matar se for ou não necessário (quando matar é necessário?). Que dos 15 aos 18 anos dá pra fazer muita coisa sem se preocupar.

Quanto à família do menino João Hélio, como cidadão espero que eles nos perdoem por termos permitido que coisas assim aconteçam. Como pai, espero que encontrem força para que possam seguir as suas vidas, ainda que um pedaço dela lhes tenha sido arrancado.

Que Deus os abençoe e que de alguma forma, dê conforto aos seus corações.

“Ele é de menor? Eu sei. Eu também sou, e meu bebê também era. Na hora que esse ´menor´ apontou a arma pra minha cabeça e arrastou meu bebê até a morte ele foi muito adulto. Agora é muito fácil pra ele ser tratado como uma criança, quando na verdade ele foi um monstro cruel e sem coração.

Ele deve ser tratado como adulto! Olha pra mim. O que você vê? Uma mulher e não uma criança. Eu sei o que faço e procuro agir de maneira correta. Tenho 14 anos e estou péssima. Minha família está sem chão, o Rio emocionado e o Brasil revoltado.

Se essa não é a hora da mudança, quando será? Quando acontecer novamente? Quando mais uma vida for tirada por um homem de 16 anos? E o pior é que ele só vai passar 3 anos de sua vida dentro de um centro de recuperação.”

 

 Trecho da carta escrita por Aline, irmão de João Hélio. Ela criou uma comunidade no Orkut chamada Joãozinho pede Justiça, e está recolhendo assinatura para uma abaixo assinado pedindo a redução da maioridade penal.

 

JUSTIÇA

 

 

Minha Maria Isabelle

 

Primeiro veio o susto, depois a preocupação misturada a uma boa dose de desespero.  Mas isso mudou no instante que eu a tive em meus braços. Eu me apaixonei por ela no instante que há vi.

21 de julho de 2000, depois de nove meses difíceis, todas as incertezas e dificuldades deram lugar a um sentimento tão forte que eu ainda não aprendi a descrever.

Na manhã daquela sexta-feira fria e chuvosa, eu sai de casa como filho e a tarde, quando voltei, eu já era pai. Minha vida agora pertencia a uma pequena garotinha que atende pelo nome de Maria Isabelle.

Apesar de eu ser o responsável por mostrar a ela como o mundo funciona, tenho que confessar que eu tenho aprendido muito mais do que ensinado.

Pois a cada sorriso alegre, ela me mostra como é simples ser feliz. Suas gargalhadas são poderosas, não existe dia cansativo que resista a elas. Tão pequena, tão sabia. Minha filha me faz, a cada dia, querer ser uma pessoa melhor.

 

Sim, eu sou um pai coruja. Há algumas semanas fui vê-la dançar na escola. Ela faz balé. Fiquei encantado com sua alegria, sua doçura. Senti orgulho e ao mesmo tempo me senti uma pessoa de sorte por poder sentir o que sinto por ela.

Sei que ela ainda vai me dar muitas alegrias, mas também muitas dores de cabeça. Não sei como seria minha vida sem a Maria Isabelle, mas tenho certeza que não seria completa.

 

 

 

Meu Livro

Como os queridos amigos que freqüentam esse humilde, pouco divulgado, mas muito querido blog, sabem (e para os não sabem também),  eu escrevi um livro, como exigência para minha conclusão do curso de jornalismo.

A experiência de fazer um trabalho como esse foi algo inexplicável. Nunca sofri tanto, nunca me esforcei tanto para fazer algo na minha vida. Em compensação também nunca tinha sentido tanto orgulho de algo que eu tivesse feito sozinho! (minha filha não conta porque tive uma participação decisiva e essencial da minha esposa!).

Enfim, como eu não queria deixá-lo somente na estante de casa e como sei que publicar é algo um pouco difícil, resolvi usar esse espaço para postar alguns trechos dele. O livro chama--se Em companhia de uma Inglesa – Vidas que a ferrovia construiu. Trata da história da estrada de ferro Santos-Jundiai, a antiga São Paulo Railway, primeira ferrovia de São Paulo. O livro traz histórias de pessoas que trabalharam na inglesa, apelido pelo qual era conhecida, ou que moraram nas cidades por onde ela passou.

Minha idéia era de mostrar a história de uma maneira mais humanizada, mostrando como a estrada mexeu como a vida das pessoas e de como ela influenciou em vários aspectos da história da formação da cidade.

Bom só lendo para entender.

Sempre vou publicar alguns trechos dele na seção Em Companhia de uma Inglesa, colocada bem ai no canto. Espero que gostem!

 

Um estrada, uma paixão

Era fim de Maio, já se passava das quinze horas quando Milton chegou à estação de Ribeirão Pires. Um sol fraco e sem graça iluminava a plataforma e ajudava as poucas pessoas que lá estavam a aliviar os efeitos do vento gelado, que anunciava a chegada do outono. Na cabeça de Milton, pensamentos vagos lhe faziam companhia. Quase trinta minutos se passaram quando, finalmente, chegou o trem que o levaria até a estação Julio Prestes.

Como era de seu costume, Milton se dirigiu até a cabine do maquinista para ver qual o colega que estava à frente da máquina. Quando se aproximou, sentiu um aperto no peito e seus olhos encheram de água. Quem guiava o trem era seu filho, que fazia sua primeira viagem como maquinista. Milton estava se aposentando e só naquele momento se deu conta de que haviam se passado 34 anos.

Sentado em uma das poltronas do lado da janela, olhando a estrada, enquanto o trem percorria o trajeto, seus olhos admiravam a paisagem, sentiu um deslumbramento com o verde da mata, que há muito não sentia. Seus pensamentos se voltaram para um longínquo quatro de Agosto de 1961.

Dentro de uma sala pequena, com as paredes pintadas de um cinza escuro e sem graça, fileiras de mesinhas de madeira mogno escuro eram alinhadas uma ao lado da outra. Apesar das quase trinta pessoas presentes na sala, um silêncio quase solene tomava conta do ambiente. Um silêncio só quebrado pelo toque constante e irritante do relógio postado bem ao centro da parede, logo em cima da lousa.

Ali se realizavam os testes para vaga na ferrovia Santos - Jundiaí. Entre os candidatos, na maioria jovens vindos das mais diferentes regiões do país, estava um rapaz magro, de estatura média, cabelos negros e óculos. Era seu Milton. Ele se sentou bem no fundo em uma das últimas carteiras. Lia o papel colocado na mesa com atenção, não queria apenas um emprego, queria realizar um sonho de ser ferroviário.

Na folha apenas uma questão, pedindo que fosse feita uma redação com o tema: as mãos. Milton fechou os olhos e se lembrou das mãos do seu pai, calejadas por 19 anos de trabalho na função de foguista na ferrovia Leopoldina, em Minas Gerais. Lembrou-se da emoção que sentia quando via seu pai passar no trem e, com as mãos, acenar para ele.

Lembrou do orgulho que tinha em ir esperá-lo na estação central, onde chagava todos os dias às seis da tarde. “Eu ficava sentando em um banquinho de madeira, impaciente. Quando ouvia os primeiros apitos do trem meu sorriso já se abria. Meu pai descia do trem e eu corria ao seu encontro. Pegava sua mala para carregar e lhe tomava a benção. Quando pegava em sua mão, eu mal sentia sua pele. Sua mão parecia um casco de burro. Aquilo pra mim era motivo de orgulho, pois daquelas mãos saia a comida que eu comia todos os dias”.

Foi com esse orgulho, com esse sentido de trabalho que as mãos de seu pai lhe ensinaram, que Milton escreveu sua redação. Foi aprovado.

Aos poucos ia se dando conta de que a partir de agora, seria um ex-funcionário. Depois de muitos anos, começava a admirar a paisagem, como um mero passageiro. Sentimento de angústia por estar abandonando uma de suas maiores paixões, se misturava com a satisfação de ver o filho continuar a trilhar a estrada de seu pai e de seu avô.

Seu Milton viveu grande parte da sua vida na estrada de ferro Santos-Jundiaí. Dentro do peito, carrega um amor e um orgulho de quem fez parte da história da ferrovia, assim como a ferrovia fez parte da sua história, um sentimento comum entre as pessoas que trabalharam ou que ainda trabalham na ferrovia.

 

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